VOZ DE NÓS | Rádio & Jornal
Agrupamento de Escolas de S. João de LoureArquivo de Junho 7, 2009
Professora Adelaide Passos
Escrevo de longe, bem longe… de Doha – Qatar! Mas as novas tecnologias vão permitir que esta “carta” seja lida pelo pequeno som de um clic de um botão!
Hoje sinto uma necessidade extrema de partilhar convosco mais que uma dor, partilhar uma história fabulosa de uma amiga especial…
Adelaide, de olhar único, um olhar azul profundo e castanho quente! Acho que nunca mais na vida vou privar com um olhar tão diferente e terno… Mãe coragem, que lutou pela vida de um filho que todos davam como perdida! Pequeno ser, João ou “pipoca” como a mãe com doçura o chamava, lutaram os dois contra uma leucemia que parece não mais acabar! Mas a mãe conseguiu! Esteve com aquele menino dias a fio a pensar sempre no bem-estar dele, dos amigos, da família… E do seu lado, nesta luta de titãs, esteve sempre a sua sogra, D. Laura. Grande senhora, que nem em todos os adjectivos do mundo chegam para descrever as suas acções! Parabéns “Avó Pipa”!
E de todas as vezes que chorou ninguém viu, de todas as vezes que estava a gritar, dela só se sentia um silêncio de noite numa serra… admiro-a tanto! Sinto-me tão fraca…
Mas a Adelaide não! Nem sei bem explicar, descrever tudo aquilo que dela deve ser dito! “Abandonou” o seu marido, a sua casa, a sua profissão para morar no “hotel” do IPO Lisboa, já fez um ano. Tanto tempo, tantos dias, tantas horas no “casulo” com o seu pequeno guerreiro! Ele e tão lindo! Tão doce no seu tocar suave nos cabelos de quem ao colo sobe. As vezes só dá vontade de aperta-lo tanto! Os filhos são o espelho dos pais, o João e tão puro… O sorriso dela transmitia sempre segurança, sabem como são aqueles sorrisos que iluminam? O dela era assim!
A Adelaide faleceu no dia 3 de Junho de 2009, vitima também de leucemia… Acho que pediu a Deus que levasse a sua alma em vez da do filho!
E Deus atendeu as suas preces! O João continua a sua luta, ainda sem saber o porquê de o seu mundo ser assim, uma vez que tem apenas 4 anos.
A vida desta fabulosa mulher perdeu-se neste último ano… e mesmo a saber que não iria resistir continuou a dar força aos amigos, a tranquilizar a família e a transmitir a todos bem-estar e serenidade!
Estamos aqui longe mas gostaríamos de lhe prestar uma homenagem… nem sei se a família aceitará, mas julgo que o mundo deve conhecer a história de Adelaide. E sei bem que as dores não se medem nem as queixas se negoceiam… mas de todas as vezes que me sentir aborrecida sei que vou pensar nela e sentir-me uma pessoa desprezível…
Hoje o mundo ficou mais pobre!
O meu apelo vem também no seguimento de sentir que a informação sobre como ser dador de medula não esta a chegar aos portugueses. Pois com a maioria das pessoas com quem falei, não sabiam muito bem do que se tratava e descreviam o processo como bastante doloroso. Mas não é. E uma “simples” colheita e transfusão de sangue. A minha amiga Adelaide, com o seu humor irrepreensível, dizia que agora era também americana, porque o sangue que lhe corria nas veias era vindo das Américas! E na sua simpática forma de estar lá enviou um postal a agradecer! Pois depositou nesta oferenda toda a sua esperança.
Deveria ser obrigatório estar na lista de dadores! Pois acho à Adelaide faltou, para além da sorte do destino, mais um pouco de tempo.
SEJAM DADORES, PROCUREM O BANCO DE HISTOCOMPATIBILIDADE DE LISBOA – PORTO, SALVEM UMA VIDA…
Muito obrigado a ti Adelaide, vou ficar a espera do nosso abraço, aqui ou noutro lado qualquer…
Com Amor,
Lia
